[TV] A Nova Geração dos Seriados Interativos

Natureza interativa da atual relação entre fãs e suas séries tem provocado uma onda interessante de “conversas” entre roteiristas e público, durante os episódios, sem medo de irritar os críticos. Quer um exemplo? Os finais de temporada de Lost e Supernatural!
[SPOILERS]
A página em branco é o famoso “maior inimigo” do profissional das letras. Seja ele jornalista, roteirista, escritor, redator ou enviador compulsivo de e-mails! Afinal, como começar? Como encontrar o melhor caminho para contar algo relevante e, no caso da TV, suficientemente atraente para seu público? Isso piora quando é hora de encerrar ciclos, ou melhor, temporadas. Historicamente alheias à existência de sua platéia, especialmente por conta do formato, os seriados televisivos existiram por muito tempo em seu universo paralelo. Uma mera janela para outras realidades, épocas ou espécies. Agora, não mais. O mundo 2.0 aproximou espectador de roteiristas, mudou a relação entre propaganda e programa e provocou mais mudanças do que imaginamos. A maior delas é notar que grandes seriados decidem, assim, sem mais nem menos, “conversar” com seus espectadores durante seus episódios. É a representação mal da tal metalinguagem. É a voz do fã ecoando através dos personagens e a estrutura em si sendo construída em torno da reação daquele que assiste. É o fim da mera observação. Quem viu o final de Lost e o término da quinta temporada de Supernatural viu os primeiros passos dessa realidade.
Tentar desvendar os mistérios da Ilha de Lost virou passatempo mundial e cada pergunta levantada pelo programa merecia infindáveis teorias. Uma delas era: Quem seria o substituto de Jacob? Jack Shepard era a carta marcada. A escolha óbvia. Para alguns, a mais improvável justamente por ser a ‘não surpresa’. E foi o que aconteceu, por um curto período, mas aconteceu. Uma onda de incredulidade deve ter assolado o mundo quando a cena da escolha foi exibida, mas ficar indignado com isso não foi apenas um direito dos fãs. John Locke, ou melhor Monstro de Fumaça que Mata Todo Mundo e Não tem Deus no Coração, reagiu do mesmo jeito: “Então é você? Pelo que conheço de Jacob, esperava alguma surpresa. Você é meio que a escolha óbvia, não acha?” [Original: So it’s you. Jack: Yeah, it’s me. Locke: Jacob being who he is, I expected to be surprised. You're sort of the obvious choice, don't you think?]
Não há melhor maneira de interagir com seus seguidores, especialmente no caso de Lost, que arregimentou um dos maiores exércitos de fanáticos que a TV moderna já viu ao longo de seus seis anos. Você tem dúvidas e expectativas, nós entendemos. E sabemos exatamente quais são. Essa é a mensagem, um modo curioso para respeitar a clientela e aumentar ainda mais sua identificação com o roteiro. Entretanto, há um elemento fundamental aí: ao reconhecer a existência do público dessa forma, não há volta para o sistema antigo, no qual tudo acontece alheio à vontade do espectador. É a semente de uma nova dinâmica.
Mas Lost não está sozinho nessa tendência. The Swan Song, o último episódio da quinta temporada de Supernatural, fez mais do que transmitir as dúvidas dos fãs e conversou com sua platéia ao longo do episódio. Tudo começa com Chuck, o profeta que escreve o Evangelho dos Irmãos Winchester, reconhecendo as dificuldades de sua tarefa: escrever. Afinal, como concluir uma história bem desenvolvida ao longo de cinco anos, ou melhor, como vencer o Apocalipse e ainda deixar espaço para um sexto ano? É um dilema tanto para espectador quanto para os roteiristas. Uma decisão errada, e tudo iria ralo abaixo.
Ao entender seu processo, Chuck encontra um caminho para iniciar sua história: o Impala, que faz as vezes de lar para Dean e Sam, assim como já se consagrou na mitologia televisiva como um dos carros mais marcantes do gênero. Com isso, Supernatural envolveu sua audiência, agora instruída no difícil ato da criação, e essa combinação – público e roteiro – serviu de guia para a conclusão da temporada. De algum modo, mesmo sem influência direta, cada um colaborou para aquele final. Ou foi levado a acreditar nisso.
De qualquer forma, falamos aqui sobre o exercício criativo e a nova estrutura, que convida o espectador a ter sua voz na tela. Muito mais que Hurley com suas colocações nerds – fazendo as vezes de representante, mas sem permitir esse tipo de interação – ou, no caso de Supernatural, no episódio em que Sam e Dean ficaram presos dentro de uma convenção de fãs. Nesse capítulo, aliás, encontraram-se muitos representantes, mas poucas vozes ativas, especialmente se considerarmos a abrangência minúscula do fã-clube fictício e a enormidade de sua versão real. Nunca que apenas uma fã perceberia estar diante de seus ídolos. Ali, a diminuição serviu apenas como homenagem.
Mas as regras mudaram. Viver o dia a dia de Chuck, compreender sua narrativa, e encontrar sua voz ativa em Lost mostra um caminho. O roteirista é deus, cuja existência depende da crença de sua platéia. Uma questão de fé, seja ela real ou fictícia. É uma interação mais positiva e menos incisiva do que a proposta pelos primórdios do Você Decide e não prevê a participação ativa, e desregrada, das ligações dos reality shows. É chegada a hora de uma nova tela branca, na qual letras serão inseridas não para atender ao produtor e, com sorte, atrair fãs, mas sim para incorporar todos esses elementos e, dessa mistura, desenvolver o novo conceito de seriados interativos e de qualidade.
E que isso afunde com o reinado acéfalo da TV realista que de real não tem nada.


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